Nova análise da Mighty Earth e do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) revela grandes lacunas entre as políticas de desmatamento e conversão zero (DCF) de frigoríficos, traders de soja e varejistas no Brasil e suas ações para acabar com o desmatamento e a conversão de vegetação nativa em suas cadeias de fornecimento.
Quatorze empresas foram avaliadas e pontuadas em um total de 150 pontos. Sete empresas obtiveram menos de 75 pontos.
Pouca liderança, muitos atrasos
Marfrig, Amaggi e Carrefour são as empresas líderes nos setores de carne bovina, soja e varejo, com pontuações de 137, 98 e 124, respectivamente — embora ainda tenham trabalho a fazer para atingir plenamente o status DCF.
Na outra ponta da tabela, JBS é a empresa de carne bovina com pior classificação, com 51 pontos, enquanto ALZ e Grupo Mateus são o trader de soja e o varejista com as menores pontuações, com 17 e 0 pontos, respectivamente.
A Cargill, maior trader de soja do mundo, enfraqueceu seus compromissos ao reduzir ou tornar menos claros a data de corte para desmatamento e a data de referência, o que se reflete em sua pontuação de 63 pontos.
De forma geral, a análise identificou: compromissos públicos DCF fracos ou pouco claros; dificuldades persistentes para garantir rastreabilidade total; transparência muito limitada, tanto coletiva quanto individual; falta de mecanismos de responsabilização.
Também não está claro se algumas empresas adotaram compromissos DCF reais para eliminar o desmatamento e a conversão em toda a cadeia de fornecimento, ou se estão tentando erradicar apenas o desmatamento ilegal. Além disso, varejistas não incluem políticas voltadas ao setor da soja.
Paralelamente, defendemos que compromissos voluntários, sozinhos, não são suficientes diante da urgência de acabar com o desmatamento. Regulamentações vinculantes, como o Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR), são essenciais para garantir que desmatamento zero seja uma exigência legal. Incorporar esse princípio nas leis ambientais e climáticas é crucial para impulsionar mudanças sistêmicas.
Mariana Gameiro, Consultora Sênior para o Brasil da Mighty Earth, disse:
“As falhas da maioria das empresas que analisamos ocorrem em um momento em que a Moratória da Soja na Amazônia está sendo enfraquecida, o que torna os compromissos DCF ainda mais relevantes. As empresas devem manter a abordagem setorial desse mecanismo e cumprir suas promessas de cadeias livres de desmatamento e conversão.”
“Varejistas e empresas do setor alimentício têm um papel crucial a desempenhar e precisam usar seu poder de mercado para romper relações com aqueles que abandonaram a Moratória da Soja na Amazônia ou que não cumprem os critérios do mecanismo.”
“Acabamos de viver o terceiro ano mais quente já registrado e dependemos da Floresta Amazônica para mitigar o aquecimento global. Os atores do sistema alimentar precisam cumprir suas promessas de protegê-la, para evitar que milhões de hectares adicionais sejam perdidos para a produção de carne e soja. A Amazônia não pode ser sacrificada pelo lucro.”
Samanta Fabbris, analista do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Idec no Brasil, disse:
“Sem o controle de toda a cadeia de produção, especialmente dos fornecedores indiretos, o mercado não consegue diferenciar compromissos efetivos de declarações formais, o que afeta decisões de investimento e o acesso a mercados. O compromisso com o desmatamento zero é urgente; trata-se de uma questão de segurança alimentar e de responsabilidade planetária, mas também de eficiência econômica. Sem saber exatamente de onde vêm a carne e a soja que chegam ao mercado, os riscos aumentam para consumidores, investidores e para o próprio país.”
Por que as metas de DCF são importantes
Frigoríficos, o setor da soja e varejistas no Brasil têm um papel fundamental na transformação dos sistemas alimentares para alcançar metas climáticas e de proteção da natureza.
A produção e o consumo de alimentos no Brasil são responsáveis por 74% das emissões de gases de efeito estufa do país. A agropecuária é o principal motor do desmatamento no Brasil, sendo responsável por mais de 97% da perda de vegetação nativa nos últimos seis anos.
Embora dados preliminares do PRODES para 2025 mostrem uma queda geral nas taxas de desmatamento na Amazônia Legal, os focos de desmatamento ainda persistem. No estado de Mato Grosso, a taxa de desmatamento aumentou mais de um quarto em 2025 em comparação com 2024.
2025 foi tanto o terceiro ano mais quente já registrado — em grande parte impulsionado pela atividade humana — quanto o ano-meta para acabar com o desmatamento nas cadeias de fornecimento de carne e soja. Essa meta não foi cumprida, e a análise revela que muitas empresas desses setores ainda não têm controle sobre suas cadeias de fornecimento indiretas.
Moratória da Soja na Amazônia
Os compromissos DCF das empresas tornaram-se ainda mais relevantes após traders importantes abandonarem a Moratória da Soja na Amazônia (ASM) no início de 2026.
Enfraquecer a ASM compromete uma das ferramentas mais eficazes disponíveis para prevenir o desmatamento. Sem esse mecanismo, o desmatamento na Amazônia pode aumentar em até 30% até 2045, segundo o IPAM.
O fim da Moratória também desmontaria um sistema comprovado de monitoramento da legalidade, que tem sido eficaz no combate ao desmatamento ilegal, já que a maioria das fazendas não conformes não possui as autorizações necessárias.
O que pedimos:
Fim
Para mais informações ou agendar uma entrevista, entre em contato com:
Carole Mitchell, Global Director of Communications
[email protected]
+44 7917 105000
Notas para edição:
Como as empresas pontuaram
No caminho certo (acima de 100)
No meio da estrada (abaixo de 100)
Ficando para trás (abaixo de 75)
Fora da rota (menos de 20)
Metodologia
As 14 empresas foram avaliadas com base em uma adaptação dos critérios mínimos de desmatamento e conversão zero propostos pela The Nature Conservancy (TNC), World Wide Fund for Nature (WWF), Imaflora e World Resources Institute (WRI). Foram enviados questionários personalizados às empresas e criado um sistema de pontuação com base nas respostas, variando conforme a robustez e qualidade das políticas ou práticas adotadas. Dados adicionais foram coletados para verificar respostas ou complementar questionários quando empresas não responderam.
A análise incluiu: relatórios de sustentabilidade, políticas socioambientais e climáticas, códigos de conduta para fornecedores, políticas de compras e outros documentos corporativos disponíveis online. Todas as etapas da análise ocorreram entre agosto e novembro de 2025.
Marfrig, Minerva e Carrefour enviaram respostas completas, enquanto GPA e Assaí forneceram informações parciais. A trader de soja LDC respondeu, mas sem contribuições substanciais. As demais empresas não responderam. As empresas foram pontuadas em até 150 pontos e classificadas de acordo com sua pontuação.
Em novembro do ano passado, antes da COP30 na Amazônia, a análise foi compartilhada com cada empresa, com solicitação para que relatassem de forma transparente seu progresso quanto aos compromissos DCF e reafirmassem publicamente apoio à Moratória da Soja e à data de corte de 2008 durante a COP30.
Metade das empresas analisadas são traders de soja que controlam até 60% das exportações brasileiras. Os frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva representam mais de um quarto da participação no mercado doméstico de carne bovina no Brasil, além da maioria das exportações. Os quatro maiores supermercados representam mais de 40% da participação de mercado no país.
Sobre a Mighty Earth
A Mighty Earth é uma organização global de advocacy dedicada a defender um planeta vivo. Seu objetivo é proteger a natureza e garantir um clima que permita a vida florescer. A organização tem alcançado mudanças transformadoras ao influenciar grandes setores industriais a reduzir drasticamente o desmatamento e a poluição climática em suas cadeias globais de fornecimento, incluindo óleo de palma, borracha, cacau e ração animal, ao mesmo tempo em que defende os meios de vida de comunidades indígenas e tradicionais. www.mightyearth.org
Sobre o IDEC
O Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) é uma organização da sociedade civil brasileira dedicada à defesa dos direitos dos consumidores e à promoção de mercados sustentáveis, justos e transparentes. www.idec.org.br