Principais frigoríficos, traders de soja e varejistas do Brasil falham no combate ao desmatamento

Sydney Jones

Press Secretary

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Carole Mitchell

Global Communications Director

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  • Nova análise dos compromissos DCF das maiores empresas de carne, soja e varejo do Brasil revela que apenas duas — Marfrig e Carrefour — estão no caminho certo.
  • O controle de fornecedores indiretos continua sendo o calcanhar de Aquiles para todas as empresas — inclusive para a Amaggi, a trader de soja mais bem posicionada.
  • A pesquisa destaca a necessidade de manter os critérios da Moratória da Soja para evitar a aceleração do desmatamento e impedir que a Floresta Amazônica seja empurrada ainda mais para perto do colapso.

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Nova análise da Mighty Earth e do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) revela grandes lacunas entre as políticas de desmatamento e conversão zero (DCF) de frigoríficos, traders de soja e varejistas no Brasil e suas ações para acabar com o desmatamento e a conversão de vegetação nativa em suas cadeias de fornecimento.

Quatorze empresas foram avaliadas e pontuadas em um total de 150 pontos. Sete empresas obtiveram menos de 75 pontos.

Pouca liderança, muitos atrasos

Marfrig, Amaggi e Carrefour são as empresas líderes nos setores de carne bovina, soja e varejo, com pontuações de 137, 98 e 124, respectivamente — embora ainda tenham trabalho a fazer para atingir plenamente o status DCF.

Na outra ponta da tabela, JBS é a empresa de carne bovina com pior classificação, com 51 pontos, enquanto ALZ e Grupo Mateus são o trader de soja e o varejista com as menores pontuações, com 17 e 0 pontos, respectivamente.

A Cargill, maior trader de soja do mundo, enfraqueceu seus compromissos ao reduzir ou tornar menos claros a data de corte para desmatamento e a data de referência, o que se reflete em sua pontuação de 63 pontos.

De forma geral, a análise identificou: compromissos públicos DCF fracos ou pouco claros; dificuldades persistentes para garantir rastreabilidade total; transparência muito limitada, tanto coletiva quanto individual; falta de mecanismos de responsabilização.

Também não está claro se algumas empresas adotaram compromissos DCF reais para eliminar o desmatamento e a conversão em toda a cadeia de fornecimento, ou se estão tentando erradicar apenas o desmatamento ilegal. Além disso, varejistas não incluem políticas voltadas ao setor da soja.

Paralelamente, defendemos que compromissos voluntários, sozinhos, não são suficientes diante da urgência de acabar com o desmatamento. Regulamentações vinculantes, como o Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR), são essenciais para garantir que desmatamento zero seja uma exigência legal. Incorporar esse princípio nas leis ambientais e climáticas é crucial para impulsionar mudanças sistêmicas.

Mariana Gameiro, Consultora Sênior para o Brasil da Mighty Earth, disse: 

“As falhas da maioria das empresas que analisamos ocorrem em um momento em que a Moratória da Soja na Amazônia está sendo enfraquecida, o que torna os compromissos DCF ainda mais relevantes. As empresas devem manter a abordagem setorial desse mecanismo e cumprir suas promessas de cadeias livres de desmatamento e conversão.”

“Varejistas e empresas do setor alimentício têm um papel crucial a desempenhar e precisam usar seu poder de mercado para romper relações com aqueles que abandonaram a Moratória da Soja na Amazônia ou que não cumprem os critérios do mecanismo.”

“Acabamos de viver o terceiro ano mais quente já registrado e dependemos da Floresta Amazônica para mitigar o aquecimento global. Os atores do sistema alimentar precisam cumprir suas promessas de protegê-la, para evitar que milhões de hectares adicionais sejam perdidos para a produção de carne e soja. A Amazônia não pode ser sacrificada pelo lucro.”

Samanta Fabbris, analista do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Idec no Brasil, disse:

“Sem o controle de toda a cadeia de produção, especialmente dos fornecedores indiretos, o mercado não consegue diferenciar compromissos efetivos de declarações formais, o que afeta decisões de investimento e o acesso a mercados. O compromisso com o desmatamento zero é urgente; trata-se de uma questão de segurança alimentar e de responsabilidade planetária, mas também de eficiência econômica. Sem saber exatamente de onde vêm a carne e a soja que chegam ao mercado, os riscos aumentam para consumidores, investidores e para o próprio país.”

Por que as metas de DCF são importantes

Frigoríficos, o setor da soja e varejistas no Brasil têm um papel fundamental na transformação dos sistemas alimentares para alcançar metas climáticas e de proteção da natureza.

A produção e o consumo de alimentos no Brasil são responsáveis por 74% das emissões de gases de efeito estufa do país. A agropecuária é o principal motor do desmatamento no Brasil, sendo responsável por mais de 97% da perda de vegetação nativa nos últimos seis anos.

Embora dados preliminares do PRODES para 2025 mostrem uma queda geral nas taxas de desmatamento na Amazônia Legal, os focos de desmatamento ainda persistem. No estado de Mato Grosso, a taxa de desmatamento aumentou mais de um quarto em 2025 em comparação com 2024.

2025 foi tanto o terceiro ano mais quente já registrado — em grande parte impulsionado pela atividade humana — quanto o ano-meta para acabar com o desmatamento nas cadeias de fornecimento de carne e soja. Essa meta não foi cumprida, e a análise revela que muitas empresas desses setores ainda não têm controle sobre suas cadeias de fornecimento indiretas.

Moratória da Soja na Amazônia

Os compromissos DCF das empresas tornaram-se ainda mais relevantes após traders importantes abandonarem a Moratória da Soja na Amazônia (ASM) no início de 2026.

Enfraquecer a ASM compromete uma das ferramentas mais eficazes disponíveis para prevenir o desmatamento. Sem esse mecanismo, o desmatamento na Amazônia pode aumentar em até 30% até 2045, segundo o IPAM.

O fim da Moratória também desmontaria um sistema comprovado de monitoramento da legalidade, que tem sido eficaz no combate ao desmatamento ilegal, já que a maioria das fazendas não conformes não possui as autorizações necessárias.

O que pedimos:

  • Expansão dos compromissos DCF para todos os ecossistemas, aplicando uma data de corte de 2020 para todos os biomas, exceto a Amazônia.
  • Na Amazônia, manutenção e fortalecimento da abordagem setorial da Moratória da Soja, com preservação da data de corte de 2008, rastreabilidade no nível da fazenda e compromisso com desmatamento zero — tanto legal quanto ilegal.
  • Implementação de rastreabilidade total para todos os fornecedores — incluindo fornecedores indiretos — para eliminar os pontos cegos que impulsionam o desmatamento legal e ilegal.
  • Fortalecimento da transparência e da responsabilização, incluindo mecanismos públicos de alerta e denúncia, relatórios acessíveis e sistemas de monitoramento confiáveis e verificados de forma independente. 

Fim

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Notas para edição:

Como as empresas pontuaram

No caminho certo (acima de 100)

  • Marfrig apresenta o conjunto mais robusto de políticas e práticas para enfrentar o desmatamento em sua cadeia de valor. A empresa cobre desmatamento e conversão legais e ilegais em todos os biomas brasileiros, adota datas de corte reconhecidas pelo setor (julho de 2009 para o bioma Amazônia e dezembro de 2020 para os demais biomas) e estabelece dezembro de 2025 como ano-meta para atingir seus objetivos. (137/150)
  • Carrefour é o varejista com melhor desempenho, com compromissos ambiciosos alinhados aos padrões do setor. Possui processos robustos para sua cadeia direta de fornecimento de carne bovina, mas reconhece os desafios relacionados à cadeia indireta. Assim como na carne bovina, há um compromisso DCF para a soja que cobre todos os biomas, mas ele é menos explícito e parece aplicar-se apenas às lojas do varejista na França. (124/150)

No meio da estrada (abaixo de 100)

  • Amaggi posiciona suas próprias fazendas como livres de desmatamento e conversão desde 2008 e promete alcançar uma cadeia de fornecimento de soja totalmente livre de desmatamento até 31 de dezembro de 2025. O desafio permanece em escalar a rastreabilidade verificada no nível da fazenda entre fornecedores indiretos. (98/150)
  • ADM pretende eliminar o desmatamento em toda a sua cadeia de fornecedores diretos até 2025, mas para fornecedores indiretos a data-meta é 2027 em áreas de alto risco da Amazônia, Cerrado, Pantanal e Chaco. (91/150)
  • LDC afirma rastrear 98% dos fornecedores diretos no Brasil em 2024, mas reconhece ter alcançado apenas 62% de rastreabilidade até a fazenda entre fornecedores indiretos em regiões prioritárias do Brasil em 2024. (88/150)
  • COFCO possui compromisso DCF para 2025, mas isso é enfraquecido pela adoção de 2025 como data de corte. A Amazônia é exceção, com data de corte em julho de 2008, alinhada aos critérios da Moratória da Soja. (85/150)
  • Bunge afirmou que, em 2024, 97% da sua soja direta em regiões prioritárias (Matopiba e Mato Grosso no Brasil, regiões selecionadas da Argentina e o Chaco paraguaio) era DCF, mas não apresenta informações sobre volumes provenientes de fontes indiretas. (85/150)

Ficando para trás (abaixo de 75)

  • O compromisso DCF da Minerva é parcial, pois inclui apenas a eliminação do desmatamento ilegal (em todos os biomas) com meta para 2030. As informações sobre datas de corte não são explícitas nos documentos da empresa. A empresa participou da análise e respondeu à sua pontuação de 71/150.
  • A Cargill não participou da análise nem respondeu à sua pontuação de 63/150. A empresa afirma que eliminará desmatamento e conversão até o final de 2025 em todos os biomas brasileiros, mas estabelece 2030 para o restante da América Latina, o que levanta preocupações sobre a Bolívia, onde a soja está impulsionando desmatamento acelerado.
  • O Assaí Atacadista apresenta bom desempenho em sua cadeia de abastacimento de carne bovina, com meta DCF para 2025, incluindo desmatamento legal e ilegal na Amazônia e no Cerrado. A data de corte é maio de 2009 na Amazônia e dezembro de 2020 no Cerrado. Porém, não há compromisso DCF para a cadeia de soja. (57/150)
  • Os compromissos DCF da JBS foram considerados fragmentados, com implementação ineficaz e baixa transparência. A empresa afirma que eliminará desmatamento legal e ilegal na Amazônia até 2025 para fornecedores diretos e indiretos, com data de corte em 2008. A empresa ignorou o questionário e não respondeu à sua pontuação de 51/150.
  • O GPA possui política de compras de carne com compromisso DCF, com metas para 2026 para fazendas fornecedoras diretas e 2030 para fornecedores indiretos. O compromisso cobre apenas Amazônia e Cerrado, para desmatamento legal e ilegal. Na cadeia da soja não foram identificados compromissos DCF nem plano de rastreabilidade. (49/150)

Fora da rota (menos de 20)

  • ALZ Grãos é a trader de soja com pior classificação, sem atender aos padrões mínimos do setor e sem um compromisso DCF claro e explícito. (17/150)
  • Grupo Mateus não pontuou nada. A empresa não publica relatórios de sustentabilidade e não há documentos corporativos abordando os compromissos DCF analisados no relatório da Mighty Earth e do Idec. O varejista não respondeu ao questionário. (0/150)

Metodologia

As 14 empresas foram avaliadas com base em uma adaptação dos critérios mínimos de desmatamento e conversão zero propostos pela The Nature Conservancy (TNC), World Wide Fund for Nature (WWF), Imaflora e World Resources Institute (WRI). Foram enviados questionários personalizados às empresas e criado um sistema de pontuação com base nas respostas, variando conforme a robustez e qualidade das políticas ou práticas adotadas. Dados adicionais foram coletados para verificar respostas ou complementar questionários quando empresas não responderam.

A análise incluiu: relatórios de sustentabilidade, políticas socioambientais e climáticas, códigos de conduta para fornecedores, políticas de compras e outros documentos corporativos disponíveis online. Todas as etapas da análise ocorreram entre agosto e novembro de 2025.

Marfrig, Minerva e Carrefour enviaram respostas completas, enquanto GPA e Assaí forneceram informações parciais. A trader de soja LDC respondeu, mas sem contribuições substanciais. As demais empresas não responderam. As empresas foram pontuadas em até 150 pontos e classificadas de acordo com sua pontuação.

Em novembro do ano passado, antes da COP30 na Amazônia, a análise foi compartilhada com cada empresa, com solicitação para que relatassem de forma transparente seu progresso quanto aos compromissos DCF e reafirmassem publicamente apoio à Moratória da Soja e à data de corte de 2008 durante a COP30.

Metade das empresas analisadas são traders de soja que controlam até 60% das exportações brasileiras. Os frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva representam mais de um quarto da participação no mercado doméstico de carne bovina no Brasil, além da maioria das exportações. Os quatro maiores supermercados representam mais de 40% da participação de mercado no país.

Sobre a Mighty Earth

A Mighty Earth é uma organização global de advocacy dedicada a defender um planeta vivo. Seu objetivo é proteger a natureza e garantir um clima que permita a vida florescer. A organização tem alcançado mudanças transformadoras ao influenciar grandes setores industriais a reduzir drasticamente o desmatamento e a poluição climática em suas cadeias globais de fornecimento, incluindo óleo de palma, borracha, cacau e ração animal, ao mesmo tempo em que defende os meios de vida de comunidades indígenas e tradicionais. www.mightyearth.org

Sobre o IDEC

O Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) é uma organização da sociedade civil brasileira dedicada à defesa dos direitos dos consumidores e à promoção de mercados sustentáveis, justos e transparentes. www.idec.org.br

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